Estorvo by Buarque Chico

Estorvo by Buarque Chico

Author:Buarque, Chico [Buarque, Chico]
Language: eng
Format: epub
ISBN: 9788580861754
Publisher: Companhia das Letras
Published: 1991-08-02T01:00:00+00:00


“Fora daí! Xô! Já disse fora daí!”, é o caseiro velho que chega ralhando com os dois sapos que estão no leito da piscina vazia. O sapo menor, na parte rasa, pula insistentemente, bate com as patas nas paredes, mas não vai atingir a borda nunca. Num salto mais arrojado, e torto, cai na parte funda e fica cara a cara com o sapo gordo. Este já sabe que não adianta pular para lado nenhum. E seus olhos dourados parecem acompanhar o caseiro velho, que desce a escadinha frouxa que dá na parte funda, e pisa com confiança aquele chão de limo. O sapo gordo parece mesmo conhecer o velho, pois agora ergue o lombo e infla a cabeça, que dobra de tamanho. O velho apanha o sapo gordo e o arremessa longe. Enquanto isso, o sapo menor pulou para o raso e recomeçou a dar com as patas nas paredes. O velho sobe a rampa de joelhos e vai de cócoras atrás do sapo menor. Quando está para agarrá-lo, este dá o salto impossível e atinge a borda. Logo depois, porém, como deslumbrado com seu recorde, salta de costas, revertendo a parábola. O velho agarra o sapo no ar e o atira na copa de uma mangueira.

Penso que, quando o ruivo vender as jóias, o meu quinhão dê para viver o quê, oito meses, um ano, talvez mais. Talvez dê para viajar, conhecer o Egito, ir para a Europa e andar no metrô onde as mulheres usam jóias. Mas prefiro que o ruivo demore a fechar negócio. Não me desagrada estar assim suspenso no tempo, contando os azulejos da piscina, chupando as mangas que o velho me trouxe. No final da tarde deixo a piscina, três mil quatrocentos e cinqüenta e seis azulejos, e reencontro o velho atrás do pomar, nos fundos do sítio, lançando cascalhos no bananal e gritando “fora daí!”.

Eu me lembrava de bananeiras, não de uma lavoura assim exuberante. O bananal cobre toda a vertente posterior do vale. Nas trilhas regulares entre as bananeiras, foram cultivados arbustos de folhas agudas e tensas, e como que umas espigas marrom-bronzeadas nas extremidades de seus galhos mais altos. Sem se importar com o velho, homens e mulheres descartam as folhas e colhem as inflorescências com mãos oblíquas, furtivas.

À noitinha sobem o morro capengando, com os balaios que os homens sustentam nos ombros e as mulheres equilibram na cabeça. Deixam a carga no celeiro e saem apressados, no que capengam ainda mais. Não calculo quantos sejam, pois andam em grupos e se parecem uns aos outros, todos muito magros e muito flácidos. Viram o rosto quando cruzam comigo, mas dá para notar que têm manchas brancas ou verrugas apinhadas na pele. No relance, vejo que alguns têm falhas na boca, nas orelhas, no nariz, e uma mulher, que nem deve ser velha, parece que em vez de rosto tem uma esponja. Convergem para o camping e enfurnam-se nas barracas, dois a dois. As barracas acionam suas músicas, uma querendo sobrepujar a outra, e o som que emana é insuportável.



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